domingo, 3 de junho de 2012

O USO DOS JOGOS COMO INSTRUMENTO DE APRENDIZAGEM


 INTRODUÇÃO

É muito instigante o trabalho utilizando os jogos como instrumento pedagógico para a aprendizagem. São muitos os estudos sobre a utilização dos jogos, do lúdico de forma geral, como ferramenta facilitadora do processo de ensino e aprendizagem; porém são raros os casos dos professores que utilizaram ou utilizam os jogos como processo educativo. E, quando utilizam os jogos apresentam dificuldades em relacioná-los ao conteúdo trabalhado, ou melhor, trabalhar os conteúdos através dos jogos.
            Ao trabalhar com jogos os resultados serão mais visíveis, pois o aluno envolve-se no processo, mas a questão é como fazê-lo?
            Tornar a aprendizagem mais prazerosa para que os alunos possam encontrar na escola muito além do quadro de giz, cadernos, lápis, borracha e livros, mas que disponham de lazer sem descuidar do processo educativo. Aprender brincando - já é hora do profissional da educação rever sua postura, redefinir objetivos e se conscientizar de que os jogos e as brincadeiras, quando adequados ao momento educativo, são “ferramentas” importantíssimas no processo de aprendizagem.
            Atualmente, vejo os jogos sendo utilizados, nas escolas, sem fins educativos, somente para preencher aquele tempinho que ainda está sobrando, o famoso tempo ocioso. O que eu espero é contribuir para que os jogos passem a ser utilizados com objetivos pedagógicos, com a verdadeira intenção de ensinar.
            Os jogos podem ser uma forma de melhorar a qualidade da educação, o prazer em aprender e em ensinar.
            O que proponho com o desenvolvimento desse trabalho de pesquisa é desmistificar a dicotomia entre trabalhos ‘ditos’ sérios e os momentos de recreação. O momento de recrear, de brincar é também momento de aprender. Tem que haver interação entre conteúdos e o ato de brincar.
            A criança é o brinquedo e o brincar faz parte de seu cotidiano. Portanto, ao introduzir os jogos, na escola, como proposta de ensino o professor estará relacionando a aprendizagem a algo prazeroso para a criança. Aprender passa a fazer parte de seu mundo, pois a criança é o que é brincando, e assim ela interage com o mundo ao seu redor, com suas vivências diárias. A escola passa a ser seu próprio mundo, pois uma vez que se estabelece na relação entre a satisfação pessoal e a aprendizagem, os jogos assumem uma nova categoria na relação entre aluno e aprendizagem.
O processo de ensino-aprendizagem tem que ser prazeroso e significativo para alunos e professores e o trabalho com jogos vem para estimular a participação e interação entre docente e discente.  O jogo vai favorecer a aprendizagem dos alunos.  No mundo contemporâneo não basta apenas transmitir conteúdos e valores ao aluno, mas isso tem que ser feito valorizando os interesses das crianças.  Ao trabalhar com jogos as crianças sentem-se em seu próprio mundo e tornam-se menos frustradas diante da gama de informações e conhecimentos que a sociedade moderna lhes impõe.
            O uso dos jogos e brincadeiras contribuem para que professores dinamizem mais suas aulas, assim, a aprendizagem se dá espontaneamente, sem que haja a imposição dos conteúdos de forma hierarquizada como vem sendo feito em muitas escolas e para que o conhecimento seja acessível aos alunos de forma mais prazerosa.  Utilizando o jogo adequadamente o professor dispõe de mais uma estratégia que o auxiliará no planejamento de suas aulas.
Atualmente, nas escolas, os jogos estão sendo utilizados sem fins educativos, somente para preencher aquele tempinho que ainda está sobrando, o famoso tempo ocioso. A utilização dos jogos precisa ser assumida mediante  objetivos pedagógicos com a verdadeira intenção de ensinar.
Este trabalho pretende abordar a utilização dos jogos como fontes de aprendizagem, como o jogo vai contribuir para a melhoria do ensino em sala de aula e de como os alunos se sentirão motivados a estudar e aprender.
O brincar faz parte do cotidiano das crianças e a escola precisa investir nessa possibilidade de aprendizado. O aprender com jogos e brincadeiras é mais interessante, pois assim a criança se sente em seu próprio mundo.
A valorização do jogo na instituição educacional surge como uma das iniciativas que podem garantir as condições de ensino e aprendizagem em um ambiente mais eficiente, pois o brincar é uma característica humana, é uma necessidade interior da criança, fonte de prazer e diversão e, ao mesmo tempo, de construção do conhecimento.
Desta forma, propõe uma nova maneira de pensar sobre a importância da utilização dos jogos como instrumento pedagógico, partindo de um estudo sobre vários autores que vem desmistificar a oposição entre jogos X atividades ‘sérias’.







1  O JOGO E SUA TEORIA: DE HUIZINGA A BROUGÈRE

1.1 TEORIAS E CONCEPÇÕES DE JOGO

O jogo é uma atividade tão antiga quanto o próprio homem. Segundo Huizinga (2007), é uma atividade instintiva, fisiológica e psicológica que ultrapassa os limites da atividade física e biológica. Os animais sempre brincaram por puro instinto sem que isso lhe fosse ensinado pelo homem.
Muitas teorias tentam explicar o significado do jogo como uma descarga de energia, como satisfação do instinto imitativo, como forma de relaxamento; outras várias teorias interpretam o jogo como uma preparação para vida adulta, exercício de autocontrole, um impulso inato para dominar e competir, uma válvula de escape para os impulsos prejudiciais, uma fonte para restabelecer as energias (HUIZINGA, 2007).
A concepção de jogo atualmente está interligada ao divertimento. Segundo o dicionário Houaiss a finalidade do jogo é divertir, entreter e recrear.
Brougère (1998) associa a palavra jogo a algo indefinido, embora evidente a sua existência, portanto para se definir jogo temos que pensar no contexto em que queremos usá-lo.
Atualmente no “jogo da vida” a noção de jogo define o contexto sócio-cultural no qual queremos empregá-lo. Jogar, hoje, assume proporções indefinidas, associando-se não apenas ao lúdico, mas às artimanhas que a própria vida nos impõe.
Brougère destaca que “é necessário descrever seus usos para compreender o que é jogo atualmente” (1998, p.23).
Se buscarmos em nossas heranças culturais, o jogo e o ato de jogar (brincar) vem desde a antiguidade como instinto sem que isso fosse ensinado aos nossos antepassados. Em outros tempos, há alguns séculos atrás, a menina brincava de casinha e nessa brincadeira aprendia o ofício da dona-de-casa, já ao menino era concedido o ‘poder’ de desenvolver outras brincadeiras; porém o ato de brincar reproduzia a cultura e a sociedade da época, onde a criança tinha que se portar como um pequeno adulto.
            Para descrever um conceito de jogo devemos buscar na antiguidade como este era empregado para que se chegue a um conceito de jogo e possamos assim relacioná-lo ao espaço educacional.


1.2 ANTIGUIDADE: JOGO ROMANO, GREGO E ASTECA

Associamos a palavra jogo ao lúdico, que deriva de ludus que designa escola. Temos então um confronto com as concepções atuais de jogo, lúdico que está relacionado ao divertimento, ao prazer e escola. Nesse contexto, está intimamente ligado a algo sério e a falta de prazer.
            Segundo Brougère (1998) o termo ludus representa uma ambigüidade, ao mesmo tempo servia para designar atividade livre, espontaneidade, o jogo; também atividade dirigida e imposta, a escola. O termo ludus ainda era usado com a intenção de qualificar técnica, exercício e treinamento e as escola de gladiadores eram designadas com o mesmo termo. Desta forma, começamos a pensar em escola em um sentido de treinamento e exercício.
O autor utiliza ludere no sentido de exercer, simular uma atividade real e objetiva como uma caçada ou uma guerra ou ainda realizar uma séria de gestos da vida prática, apenas com o objetivo de realizá-lo da melhor forma possível.
Assim, o mesmo termo que evoca a noção de técnica, exercício e treinamento pode estar associado ao jogo, atividade livre e espontânea e a escola, atividade dirigida e imposta.
Nesse jogo de análise das palavras seguimos para análise das atividades praticadas pela civilização romana. Os costumes romanos eram muito diferentes dos gregos em relação ao jogo.
Para os romanos, os jogos eram espetáculos para serem olhados e não praticados. Os atores desses jogos eram em grande massa os escravos.
Existiam dois tipos de jogos, segundo Brougère (1998, p. 37):

“Mas, antes de avançar a análise, convém distinguir os dois tipos de jogos, os jogos de cena (ludi scaenici) composto de teatro, mímica, dança, concursos de poesia e os de circo (ludi circenses) composto de corridas de biga, combates e encenações de animais, caças e jogos atléticos”.
           
            Tanto os jogos de cena quanto os de circo faziam parte do mundo do faz-de-conta, da imaginação, do fingimento.
No jogo romano desenrola-se uma encenação do mundo num universo do Ludus, não sério, de fingimento; os combatentes não eram verdadeiros soldados do exército romano, as bigas dão voltas na arena preparada para encenação e o patrocinador do jogo não é o verdadeiro imperador. Todo esse jogo segue a rituais religiosos, uma oferenda aos deuses.
Os cidadãos romanos (espectadores) e os patrocinadores dos jogos assumiam assim o lugar de deuses.
A característica marcante dos jogos romanos é a encenação, o espetáculo e a possibilidade de experimentar emoções que não poderia de outra forma. Nesse contexto, em que o jogo permite a apropriação de novos significados e conhecimentos, entendemos a relação do faz-de-conta, do não sério como espaço para aprender, a escola.
Na Grécia a noção de jogo está interligada à noção de concurso, de exercício. Na civilização grega, os concursos são de grande importância. A análise desses concursos se dá em três níveis. Permite expressar energia, vitalidade em clima de competição, onde são controlados por regras precisas. Através de atos simples, como correr, lutar, cantar, explica-se a sua relação com o divino, com o sobrenatural. E por fim, representam uma forma de estruturar, integrar e harmonizar a comunidade na construção da universalidade.
A diferença entre jogo grego e jogo romano foi destacada por Brougère, embora haja um ponto comum entre os dois, a simulação, que também observamos no jogo moderno:

“O jogo é um universo específico, distinto em particular da guerra (polemos). São certamente exercícios guerreiros, mas não são justamente exercícios (fingimento). O dardo ainda é lançado, mesmo que tenha sido abandonado pelo exército; o mesmo ocorre com a biga. Há um aspecto de simulação que é o ponto comum com o jogo romano, talvez com o nosso jogo e com tudo que podemos traduzir com esse vocábulo” (Brougère, 1998, p. 40).


Tanto para romanos como para gregos, o jogo relaciona-se com religião. Essa associação entre jogo e religião vem demonstrar que na antiguidade o aspecto fútil do jogo é aceito como meio para integrar as atividades sérias.
Por um lado o jogo está ligado à não seriedade, à futilidade, por estar em oposição à realidade, ao trabalho.
O jogo asteca, segundo Brougère, fazia parte de um rito religioso, onde “o jogo (se for mesmo um jogo) participa da regeneração cósmica indispensável à sobrevivência da sociedade” (1998, p. 43).
A sociedade asteca rejeita a condição de futilidade do jogo. O jogo não provém do religioso, porém a religião apropriou - se dessa linguagem. O sentido de jogo aqui assume função social, como forma de expressão da cultura, de algo eficaz ao relacionar-se com o sobrenatural, mesmo que façam usos profanos paralelos a esses atos.
Para Hiuzinga (2007, p.6):

“Todo ser pensante é capaz de entender a primeira vista que o jogo possui uma realidade autônoma, mesmo que sua língua não possua um termo geral capaz de defini-lo. A existência do jogo é inegável. É possível negar, se se quiser, quase todas as abstrações: a justiça, a beleza, a verdade o bem, Deus. É possível negar a seriedade, mas não o jogo”.


O jogo faz parte do cotidiano da existência humana, não sendo possível negá-lo em nosso meio. Assim como o animal brinca por instinto, o homem também o faz por necessidade fisiológica, cultural, psicológica e biológica. Não se pode separar o homem do brincar, pois a vida é um jogo de interações que são realizadas no decorrer da existência humana.
Se a criança joga, ela o faz pelo simples instinto de desenvolver-se, de interagir com o mundo, com o próprio corpo e com o outro, e não porque é uma obrigação da criança brincar.
Necessário ao nosso desenvolvimento, o jogo é característica vital como forma de assimilação da realidade e sóciculturalmente útil como expressão dos ideais comunitários.
Jogar é instintivo ao homem, não fazendo parte apenas do universo infantil. Joga-se por prazer, joga-se como forma de obter lucros enfim, o jogo é uma construção histórica.
A criança desenvolve-se biopsicossócioculturalmente através do brincar, que neste trabalho utilizo como sinônimo de jogar.
Os jogos estimulam a busca dos próprios conhecimentos para então interagir com os demais, desenvolvidos a partir do intermédio com o outro (na figura do adulto ou da criança) e com o próprio jogo.
O brincar está para a criança assim como o trabalhar está para o adulto.   A criança não se vê como separada do brinquedo que realiza. Privá-la de brincar pode torná-la infeliz, desajustada e fazê-la perder o sentido da vida. A escola enquanto instituição formal de desenvolvimento do intelecto, não pode dicotomizar o jogo das atividades ‘ditas’ sérias.
O jogo é uma atividade natural na vida do ser humano e cotidiana na vida das crianças, sendo de suma importância para o seu desenvolvimento social, afetivo e cognitivo.  Ao brincar, as crianças desenvolvem aspectos específicos da personalidade, da afetividade, da motricidade, da inteligência, da sociabilidade e da criatividade.
A escola não pode alienar-se a esta atividade construída historicamente no cotidiano do ser humano. A criança é o que é brincando, jogando, interagindo e buscando novas formas de aprender a ser e a conviver no meio.
Pensar em jogo não nos leva a pensar em formas de preencher o ócio, em meios para acabar com a ‘bagunça’ em sala de aula. O jogar assume novas competências, novos valores quando organizado em condições pedagógicas.
Dessa forma, o que venho propor é uma nova maneira de se pensar o jogo como influência na aprendizagem das crianças.  O desafio é de se trabalhar com os jogos tornando-os uma atividade criativa e prazerosa, sem que se esqueça de integrá-lo à aprendizagem e ao desenvolvimento da criança. Não podemos nos esquecer de que a criança também aprende muito nos jogos espontâneos onde são envolvidas questões inter-relacionadas com suas vidas cotidianas, suas percepções de mundo, suas concepções de relações com o outro, seja ele adulto ou criança, porém seu valor pedagógico se dá a partir da supervisão de um profissional que realizará a interseção desse novo conhecimento ao universo infantil.
Precisamos pensar na escola onde os jogos são fundamentais para o desenvolvimento e para a aprendizagem da criança, pois envolvem diversão e ao mesmo tempo uma postura de seriedade, o que o diferencia do simples jogo realizado sem orientação e supervisão do adulto. A intervenção do professor é necessária para que as crianças possam, em situações de jogos em grupos ou sozinhas, ampliar suas capacidades de apropriação dos conceitos, dos códigos sociais e das diferentes linguagens, linguagens estas, que se refletem em suas ideias por meio da construção da expressão, da comunicação de sentimentos, experimentação, da reflexão, da elaboração de perguntas e respostas e dos demais aspectos envolvidos no jogo.
 A brincadeira é para a criança um espaço de investigação e construção de conhecimentos sobre si mesma e sobre o mundo, o brincar está intrínseco no cotidiano infantil.  Jogar é uma forma de a criança exercitar sua capacidade de criar e imaginar. A imaginação permite às crianças relacionarem seus interesses e suas necessidades com a realidade de um mundo que pouco conhecem. A brincadeira expressa a forma como uma criança reflete, organiza, desorganiza, constrói,destrói e reconstrói o seu mundo. 
O professor é mediador entre as crianças e os jogos, objetos de conhecimentos, organizando e propiciando espaços e situações de aprendizagens que articulam os recursos e capacidades afetivas, emocionais, sociais e cognitivas de cada criança aos seus conhecimentos prévios e aos conteúdos referentes aos diferentes campos do conhecimento humano.
Por meio dos jogos os professores podem observar e constituir uma visão dos processos de desenvolvimento das crianças e quando necessário intervindo no ato de jogar, transformando-o em novas aprendizagens para os alunos, registrando assim, suas capacidade de uso das linguagens, suas capacidades sociais e dos recursos afetivos e emocionais que as crianças dispõem ao brincar.
Se o jogo faz um elo com o divertimento, utilizá-lo como instrumento de ensino-aprendizagem é tornar a aprendizagem divertida onde a criança estará realizando o que ela mais gosta que é brincar. Nesta perspectiva o jogo assume um novo papel no espaço escolar, já é hora do profissional da educação rever sua postura, redefinir seus objetivos e conscientizar-se de que os jogos, quando adequados ao momento educativo, são “ferramentas” importantíssimas no processo de aprendizagem. O que não vale aqui é transformá-lo apenas num mero passatempo.

1.3 HUIZINGA, BROGÈRE E O JOGO

Segundo Huizinga (2007, p. 23), em Homo Ludens:

“Uma das características mais importantes do jogo é sua separação espacial em relação a vida quotidiana. É-lhe reservado, quer material ou idealmente, um espaço fechado, isolado do ambiente quotidiano,e é dentro desse espaço que o jogo se processa e que suas regras tem validade”.


O jogo assume uma característica única que o separa da vida cotidiana, dentro do espaço do jogo há suas próprias regras. E nesse espaço, torna-se possível o desenvolvimento das capacidades físicas e intelectuais do jogador.  É um momento de busca, de interação que se faz na figura do outro que isoladamente do cotidiano cria suas próprias regras e o transforma em aprendizagem.
É no momento do jogo que a criança se constrói, aprende a lidar com regras e situações de tomada de decisão, onde mesmo num espaço fechado, alheio a vida cotidiana, aprende a conviver em um mundo regrado, a impor vontades e limites ao dia-a-dia.
Huizinga (2007, p. 33) completa:

“O jogo é uma atividade ou ocupação voluntária, exercida dentro de certos e determinados limites de tempo e de espaço segundo regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias, dotado de um fim em si mesmo, acompanhado de um sentimento de tensão e de alegria e de uma consciência de ser diferente da vida quotidiana”.

Essa relação com o novo, com o diferente da vida diária que torna o jogo tão prazeroso. Nesse contexto o jogo assume um novo papel na vida de adulto, criança e de quem participe de um deles.  Assim, a escola deve buscar relacionar o jogo a sua rotina. Essa integração não se dá quando ocorre a separação: hora de brincar, brincar hora de estudar, estudar, mas, quando se busca o equilíbrio, que faz das horas de estudo uma forma de brincar, ou melhor, aprender brincando, jogando e interagindo.
Em relação ao jogo e as atividades ditas sérias Huizinga (2007, p. 51) afirma que:

“Por outro lado, o significado do jogo de modo algum se define ou se esgota se considerado simplesmente como ausência de seriedade. O jogo é uma entidade autônoma. O conceito de jogo enquanto tal é de ordem mais elevada do que o de seriedade. Porque a seriedade procura excluir o jogo, ao passo que o jogo pode muito bem incluir a seriedade”.

Assim, buscamos nos jogos um ponto de apoio para o desenvolvimento das atividades sérias, uma vez que no jogo, de acordo com Huizinga (2007), temos a capacidades de incluir o sério. Na escola, ao mesmo tempo em que o jogo é divertimento, prazer ele envolve certa seriedade que o torna também um momento de aprendizado. Na escola essa aprendizagem acontece com intervenção do professor, para que as crianças busquem novas formas de desenvolverem suas capacidades intelectuais se apropriando dos diferentes conceitos, códigos e linguagens.
Huizinga (2007) completa ainda que a relação entre jogo e seriedade é um ponto de interrogação, porém encontraremos na ética e na moral, um ponto de apoio que não encontramos na lógica.
Brougère em sua obra Jogo e Educação (1998) afirma que o jogo se relaciona mais com aspectos do comportamento social do que com o comportamento natural. Assim, o jogo está ligado ao papel social da infância, o brincar para a criança se relaciona ao trabalho para o adulto.   O brincar faz parte das características da criança, não tem como separar a criança das brincadeiras, o mundo dela gira em torno do brincar. Para a criança, o brincar assume características sociais, que dá sentido a vida.
A brincadeira é para a criança um espaço de investigação e construção de conhecimentos sobre si mesma e sobre o mundo, o brincar está intrínseco no cotidiano infantil.
Em relação á oposição que o jogo faz com o ‘sério’, Brogére (1998) afirma que apesar de sua ligação com a frivolidade o jogo tem assumido nos dois últimos séculos seu valor educativo.
Segundo Brogère a friivolidade do jogo não impede que nele se veja um lugar de educação” (1998, p. 49).
Precisamos aprender novas maneiras de se pensar no jogo e a relação que ele faz com a aprendizagem e com o desenvolvimento intelectual das crianças. Embora se tenha um caráter frívolo pode-se embutir no jogo o ato de ensinar e aprender, tornando a aprendizagem prazerosa. Até mesmo nos jogos desenvolvidos espontaneamente estão envolvidos diversas concepções relacionadas ao progresso criança, sua percepção do mundo e do outro, sua relação com o cotidiano há o aprendizado. A partir do momento que acontece a intervenção de um adulto, profissional da educação, na articulação desse novo saber ao cotidiano infantil, ele apresenta seu caráter pedagógico, embora se tenha ainda nele seu caráter frívolo.
Brougère (1998) ressalta, ainda, que embora os jogos venham assumindo novas proporções, na maioria das vezes, o que temos é o jogo em seu uso totalmente frívolo.  Ainda para o autor, o primeiro vínculo entre educação e jogo se dá em caráter totalmente frívolo, através da recreação, relação existente até hoje.
            De acordo com Brougère (1998):

 “É a primeira inscrição do jogo no espaço educativo através da recreação, e essa relação subsiste ainda hoje. O jogo é o momento do tempo escolar que não é consagrado à educação, mas ao repouso necessário antes da retomada do trabalho.” p. 54

Porém o jogo vem assumindo seu caráter sério, em oposição ao jogo proposto por Huizinga (2007) onde predomina a separação do cotidiano, o caráter ‘não-sério’, enfim.  De acordo com o ponto de vista adotado o jogo varia entre o sério e o não-sério, conforme afirma Brougère (1998).
Nesse contexto o jogo se associa com algo prazeroso e divertido, sua inserção ao universo educacional com instrumento pedagógico torna-se uma forma de inserir ânimo à aprendizagem onde a criança realiza aquilo que tem caráter ímpar para ela, o brincar. Assim o jogo vai ganhando um novo espaço ao cotidiano educacional, nas relações que são estabelecidas na aprendizagem.
Cientes da importância dos jogos e das brincadeiras no ambiente educacional os professores devem observar o desenvolvimento das crianças no ato de jogar e quando necessário interferir no jogo buscando transformá-lo em novos meios para se chegar à aprendizagem dos alunos descobrindo novos usos da linguagem, novas percepções sociais, afetivas, motoras, intelectuais e emocionais usadas como recursos das crianças ao brincar.











2 O JOGO NA EDUCAÇÃO

Para Santos e Cruz (2000) o brincar (o jogar) tem significado importante e diversificado conforme cada ponto de vista: no filosófico, o brincar é abordado como um mecanismo para contrapor à racionalidade. Já no sociológico, o brincar tem sido visto como pura inserção da criança na sociedade. No psicológico, o brincar está presente em todo desenvolvimento da criança nas diferentes formas de modificação de seu comportamento, na formação da personalidade, nas motivações, nas necessidades, emoções, valores; as interações criança/família e criança/sociedade estão associadas aos efeitos do brincar.
Do ponto de vista da criatividade, tanto o ato de brincar (jogar) como o ato criativo estão centrados na busca do “eu”. Para o ponto de vista psicoterapêutico, o brincar tem a função de entender a criança nos seus processos de crescimento e de remoção dos bloqueios do desenvolvimento, que se tornam evidentes. E para o pedagógico, o brincar tem se revelado como uma estratégia poderosa para aprender.
Antunes (2002), afirma que a escola passou muito tempo em um ensino que apenas transmitia um conhecimento pronto aos alunos e estes eram passivos à aprendizagem que lhes era transmitida pelos professores. ‘Ensinar’ confundiu-se com ‘transmitir’. E, assim, acreditava-se que aprendiam somente pela repetição, aos que não aprendiam restava o castigo da reprovação. Atualmente essa ideia vem se dissolvendo e dando espaço a de que ensino e aprendizagem caminham juntos, onde professor e aluno buscam juntos o conhecimento e o professor atua como um facilitador deste processo.
Nesse novo contexto, de transformação e busca por novos ideais de aprendizagem, faz-se necessário que o professor transforme também seu material pedagógico, acompanhando o interesse dos alunos por novas descobertas e experiências, gerando situações estimuladoras e eficazes no processo de ensino-aprendizagem. 
Antunes (2002, p. 36) afirma que:

“É nesse contexto que o jogo ganha espaço como ferramenta ideal da aprendizagem, na medida em que propõe estímulo ao interesse do aluno, que como todo pequeno animal adora jogar e joga sempre principalmente sozinho e desenvolve níveis diferentes de sua experiência pessoal e social. O jogo ajuda-o a construir novas descobertas, desenvolve e enriquece sua personalidade e simboliza um instrumento pedagógico que leva ao professor a condição de condutor, estimulador e avaliador da aprendizagem”. 


O professor assume aí um importante papel na aprendizagem dos alunos, ele não é o transmissor do conhecimento, mas será um facilitador da aprendizagem na medida em que coloca o jogo como ferramenta indispensável ao processo de ensinar e aprender. Se analisarmos o contexto de criança e jogo, perceberemos que caminham juntos, a criança brinca porque gosta e brincar faz parte de seu cotidiano.  Ao tomar consciência da importância dos jogos e brincadeiras, as propostas de trabalho do professor devem ser elaboradas de forma que incorporem o lúdico, o jogo, o brincar.
Maluf (2003) afirma que a cada dia vêm-se dando o devido valor ao brincar.  Não como uma simples estratégia didática, mas como um meio que auxilia na construção da aprendizagem. O brincar vem assumindo novas proporções no espaço educacional, uma vez que ele já não é visto somente em seu aspecto frívolo ou um momento de separação da vida cotidiana.
Segundo Maluf (2003, p. 29):

“Os professores, aos poucos, estão buscando informações e enriquecendo suas experiências para entender o brincar e como utilizá-lo para auxiliar na construção do aprendizado da criança. Quem trabalha na educação de crianças deve saber que podemos sempre desenvolver a motricidade, a atenção e a imaginação de uma criança brincando com ela.O lúdico é parceiro do professor”.

Na brincadeira torna-se possível ao professor ter uma visão geral do desenvolvimento da criança, seja em conjunto e de cada uma em particular registrando sua capacidade de usar as linguagens, assim como, suas capacidades sociais e dos usos afetivos e emocionais que dispõe.
Assim, Maluf (2003) reafirma o pressuposto que o brincar não pode estar separado das atividades ‘ditas’ sérias, podendo ser o próprio conteúdo; assim o professor pode organizar suas atividades dando significado à brincadeira.
Assim, para Maluf (2003, p.29):

“A capacidade de brincar abre para todos uma possibilidade de decifrar os enigmas que os rodeiam. O brincar pode ser um elemento importante através do qual se aprende, sendo sujeito ativo desta aprendizagem que tem na ludicidade o prazer de aprender.”

Para Ide (2002), os jogos quando bem trabalhados são grandes fontes para o desenvolvimento do intelecto da criança. O jogo deve proporcionar divertimento, prazer, mas sem deixar as condições para aprendizagem.
Ao tornar o jogo um parceiro da aprendizagem, ele apresenta novos caminhos para a forma como a escola vem trabalhando com o jogo em seu cotidiano. Este não deve ser desenvolvido apenas como meio de preencher o ócio ou de organizar a disciplina. Jogar na escola se traduz em novo método para tornar a aprendizagem realmente agradável para os alunos.
Segundo Ide (2002, p. 95), “O jogo não pode ser visto, apenas, como divertimento ou brincadeira para desgastar energia, pois ele favorece o desenvolvimento físico, cognitivo, afetivo, social e moral”.
O professor ao enriquecer sua aula com os jogos está trabalhado para o desenvolvimento intelectual da criança. O jogo na escola deve sim ser fonte de divertimento, mas não pode excluir as condições que levam a aprendizagem.
            Ide (2002, p. 96) afirma ainda que:

“As crianças ficam mais motivadas a usar a inteligências, pois querem jogar bem; sendo assim, esforçam-se para superar obstáculos, tanto cognitivos quanto emocionais. Estando mais motivadas durante o jogo, ficam também mais ativas mentalmente”.


            Pelo jogo cria-se um clima favorável ao desenvolvimento da aprendizagem, pois ao jogar as crianças sentem-se livres das cobranças para expressar seus interesses, descoberta, reflexões e moralidades.
O jogo desempenha uma grande função no processo de ensino/aprendizagem. Através dele o professor, na posição de mediador, pode conseguir muitos resultados na formação integral de seus alunos. Ao brincar/jogar a criança supera todos os limites de sua capacidade física, mental e intelectual.
É notório que a brincadeira já se incorporou ao cotidiano da criança, não existe criança que não brinca. consciente desta realidade a escola precisa investir no brincar como forma de aprendizagem. Jogando e brincando, a possibilidade a aprendizagem se enriquece, pois a criança está realizando o que é do seu agrado, vivenciando sua própria realidade. 
Sendo assim, o professor precisa entender que a criança ao jogar expressa suas fantasias, desejos e experiências; para dominar suas angústias e medos, provenientes de fantasias mescladas, muitas vezes com a realidade; para exprimir sua natural agressividade, de forma tranquila e segura, de modo socialmente aceito; para estabelecer e desenvolver a sociabilidade; para aumentar suas experiências e aprender que é permitido errar e que pode tentar de novo, sem críticas destrutivas, para promover sua criatividade e favorecer toda a expressão de sua personalidade.
            Ao jogar, a criança não está preocupada com os resultados.  É o prazer e a motivação que impulsionam a ação para explorações livres, que também contribuem para o início do processo de construção do conhecimento, que deve prosseguir com sua sistematização, sem a qual não se podem adquirir conceitos significativos.
            O educador com criatividade e planejamento pode criar, cotidianamente, ambientes que impulsionem o brincar como forma de desenvolver a aprendizagem. Para tanto, é necessário que o educador seja um eterno aprendiz e pesquisador.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de ensino-aprendizagem tem que ser prazeroso e significativo para alunos e professores e o trabalho com jogos vai estimular a participação e interação entre docente e discente.  O jogo vai favorecer a aprendizagem dos alunos.  No mundo contemporâneo não basta apenas transmitir conteúdos e valores ao aluno, mas isso tem que ser feito valorizando os interesses das crianças.  Ao trabalhar com jogos as crianças se sentem em seu próprio mundo e tornam-se menos frustradas diante da gama de informações e conhecimentos que a sociedade moderna impõe as crianças.
O jogo estimula a curiosidade, a iniciativa e a autoconfiança.  Proporciona aprendizagem, desenvolvimento da linguagem, do pensamento e da concentração da atenção.
            Valorizar o jogo na instituição educacional surge como uma das iniciativas que podem garantir as condições de ensino e aprendizagem em um ambiente mais eficiente, pois o brincar é uma característica humana, é uma necessidade interior da criança, fonte de prazer e diversão e, ao mesmo tempo, de construção do conhecimento.
Dessa forma, propomos uma nova maneira de se pensar o ato do jogo na vida escolar das crianças.  O desafio é como torná-lo uma atividade criativa e prazerosa, sem que se esqueça de integrá-lo à aprendizagem e ao desenvolvimento da criança.
            Desde décadas passadas o jogo vem sendo proposto como uma solução a problemas de fracassos escolares, pois brincando a criança aprende o que ninguém e nenhum livro podem ensinar.
            Por meio dos jogos os professores podem observar e constituir uma visão dos processos de desenvolvimento das crianças em conjunto e de cada uma em particular, registrando suas capacidade de uso das linguagens, assim como suas capacidades sociais e dos recursos afetivos e emocionais que dispõem.
Muitos educadores não possuem o conhecimento de como o jogo pode ser uma ferramenta importante em suas aulas principalmente nos casos de déficit de atenção, pois o jogar, o brincar está na criança, é da criança.
            Quando brinca, a criança se sente em seu próprio mundo sendo possível a ela organizar suas informações prévias com as adquiridas no ato de jogar transformando-as em conhecimento.
            A escola não pode desvincula-se da realidade cotidiana dos alunos. Se no seu dia-a-dia eles brincam, manipulam informações e criam outras, no jogo é também, possível que as crianças façam essas articulações na sala de aula.
            As atividades lúdicas desenvolvem integralmente uma criança, mas necessita que todo trabalho a ser desenvolvido seja planejado e com objetivos claros e coerentes, mesmo em práticas livres.
A proposta de trabalho pautada no uso dos jogos é tão necessária que é destaque para importantes estudiosos já citados neste trabalho. Essa proposta contribui para o efetivo desenvolvimento infantil.
Há ainda muito a ser mudado. O importante é o processo educativo não se deixar ser dominado por métodos ultrapassados.
É preciso destacar que as pesquisas são permanentes e muito ainda há de se descobrir para o enriquecimento contínuo da utilização fequente dos jogos na educação.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

 REFERÊNCIAS



ANTUNES, Celso. Jogos para estimulação das múltiplas inteligências. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 2002.
BROUGÈRE, Gilles. Jogo e educação; trad. Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.
HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento; trad. João Paulo Monteiro. São Paulo:Perspectiva, 2007.
Jornal Educar – Junho/julho – Ano 10 – nº 51 – 2007.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida (org). Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 6ª ed. São Paulo: Cortez, 2002.
LOPES, Maria da Glória. Jogos na educação: criar, fazer, jogar. 5ª ed. São Paulo: Cortez, 2002.
MALUF, Ângela Cristina Munhoz. Brincar: prazer e aprendizado. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.
Revista Criança do Professor de Educação Infantil – Publicação da Secretaria de Educação Fundamental do MEC – Agosto de 2007 – 43.
Revista Pátio – Educação Infantil – Ano I – nº 3 – Dezembro 2003/Março 2004.
SANTOS, Santa Marli Pires dos e CRUZ, Dulce Regina Mesquita da. Brinquedo e Infância – Um guia para pais e educadores em creche. Petrópolis, RJ. Vozes, 2000.


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